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20 anos de Legado

por Ana Wingert

A Vinícola Legado, de Campo Largo, realizou uma degustação histórica do terroir de vinhos finos do Paraná. 

Para celebrar os 20 anos da vinícola, a proprietária e winemaker Heloise Merolli recebeu 10 convidados para uma experiência singular no último sábado: a degustação de 23 rótulos que contam a evolução e maturidade dos vinhedos e da cantina e revelaram o potencial do terroir paranaense para vinhos complexos, elegantes e, inclusive, de guarda. 

Em um momento de emoção e boas lembranças, Heloise destacou que cada convidado faz parte, de alguma forma, da história da vinícola, além de ter expertise em provas de vinhos para opiniões sinceras, que ela respeita e considera muito. 

Disse também que não tinha a expectativa de que todos os vinhos estivessem bons, tendo em conta que seriam degustados vinhos de primeiras safras, desde 2011, não produzidos para longa guarda, mas salientou que certamente algumas garrafas iriam nos surpreender positivamente. 

“Não é só sobre a maturação desses vinhos em garrafa. É também sobre a história da vinícola e o que cada um deles representa. As safras que foram perdidas porque o clima estava ruim ou porque ainda não tínhamos aprendido a trabalhar com a variedade. Foi um processo longo de aprendizado”, destacou.

Na ocasião foram degustados os vinhos Sapienza Viognier 2020, 2022 e 2023, com grande destaque para a evolução da safra 2022, que encantou com suas notas amendoadas, de mel e frutas maduras. Um vinho cheio de camadas e que se destacou porque foi lançado na linha de entrada da vinícola, mas se revelou de qualidade superior. 

Da linha Sapienza, também degustamos os rosés das safras 2016, 2021 e 2022. E, por fim, o rosé da linha Sfizio, safra 2018; um corte de Merlot e Cabernet Sauvignon que encantou com muita elegância, complexidade e cremosidade. Rosé de presença, originalidade e autenticidade. Uma pena que saiu de linha… ficarei feliz se um dia voltar a ser produzido. 

Na sequência, para mim, um dos grandes destaques do flight: Sfizio Fiano 2013! No primeiro ano de produção do vinhedo inédito no Brasil, a Fiano mostrou para o que veio. Um vinho com floral exuberante, notas de flor de mel, muito mineral e com aromas de giz e de pedra molhada de chuva (petricor). Quase nenhum sinal de oxidação, apenas uma evolução impressionante em garrafa. Também degustamos as safras 2015 e 2020, que igualmente estavam deliciosas, apesar de um pouco mais herbáceas do que a safra 2013.

“Produzir Fiano foi uma escolha do coração. A uva me trazia lembranças do período em que morei na Itália e mesmo muito jovem já apreciava os aromas e o perfil do vinho”, revelou Heloise Merolli, primeira produtora no Brasil a plantar Fiano. 

Outra linha que impressiona da vinícola é a Allantica, de vinhos brancos de maceração com casca (vinhos laranja), extremamente elegantes, complexos e gastronômicos. Degustamos as safras 2018 e 2021, cada qual incrível em seu momento de evolução aromática e de sabores. 

Provamos a linha Sfizio Viognier, safras 2015 e 2021. Embora muito bem vinificados e já apresentando notas deliciosas de conversão malolática, que quase sempre me agradam, confesso que preferi a uva na linha Sapienza. Talvez o tempo nos revele nova experiência.

Mais um grande destaque foi a linha Flair Brut, de espumantes produzidos com Viognier, pelo método tradicional de Champagne. Tivemos o prazer de degustar as millésimes 2018, 2017, 2015, 2014, 2013 e 2011. Pela apresentação, é possível ter uma amostra clara de que na produção de vinhos, nem todas as safras podem ser aproveitadas e isso talvez faça parte da beleza e da tristeza do vinho. Entretanto, a parte boa é que todos são de extrema qualidade e impressionantes em textura, aromas, sabores e persistência. As safras 2013, 2014 e 2018 estavam excepcionais! Não à toa a linha é uma das preferidas do público e, não raramente, se esgota muito rápido (afinal, sua produção é bastante limitada ainda). 

Dos tintos, provamos o Sapienza 2013 (Merlot e Cabernet Sauvignon) e 2018 (100% Merlot). Assim como no vinho rosé, a Cabernet Sauvignon deu seu charme. Mas, ambos estavam muito interessantes, com aromas de especiarias e pimenta do reino e um terciário muito agradável no vinho de corte. Excelentes vinhos, que mais uma vez provaram que a linha Sapienza não era, na verdade, bem uma linha de entrada no sentido usual. A vivacidade e complexidade dos vinhos impressionou muito.

Por fim, provamos o vinho Lote 13, esse sim feito para guarda pela vinícola, com a técnica italiana de apassimento (quando as melhores uvas do vinhedo de Merlot são colhidas no auge de sua maturação e em condições perfeitas de sanidade para passar por um processo de desidratação e concentração). O resultado: um vinho que arrancou suspiros de todos os convidados! Ainda mais que tivemos o privilégio de provar o primeiro Lote 13, feito com as safras 2013, 2014 e 2015, lançado ao mercado apenas em 2017, e agora já muito bem beneficiado pelo tempo de guarda.

Foi uma experiência singular. Daquelas que ficam para sempre na memória, não só pelos vinhos, mas por toda a história que carregam. E olha que ainda teremos uma segunda parte, porque a ideia inicial era degustarmos 34 vinhos, mas faltou tempo diante das surpresas que encontramos nas garrafas abertas e que nos roubaram mais atenção do que o previsto.

Heloise Merolli relatou que não imaginava ter uma vinícola quando plantou o primeiro vinhedo e muito menos que criaria um novo terroir de vinhos finos no Brasil, o que hoje conta com muito orgulho, sobretudo porque foi pioneira em produzir vinho de uvas 100% paranaenses. Também foi pioneira por ser a primeira mulher do Brasil a construir uma vinícola do zero.

Um grande exemplo de coragem, de perseverança e de mulher. Orgulho para o povo do Paraná e para todas nós mulheres. 

Muito obrigada pelo privilégio de participar dessa degustação histórica! Fiquei muito honrada com o convite e extremamente contente com a qualidade dos vinhos.

Para saber mais sobre a Vinícola Legado, acesse vinicolalegado.com.br | @vinicolalegado

Por Ana Carla Wingert de Moraes 

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