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Além da rolha

por Ana Wingert

Além da rolha de cortiça: tendências globais e percepção do consumidor sobre os sistemas de vedação de vinhos.

Essenciais para a preservação do vinho, as rolhas tradicionais de cortiça deram espaço para novas tendências. Rolhas sintéticas, de vidro, prensadas, bag-in-box e screwcrap aparecem cada vez mais no mercado e desafiam a percepção do consumidor sobre a qualidade da bebida.

Tal como a garrafa e a rolha de cortiça modificaram a percepção do armazenamento e da vedação de vinhos à partir do século XVII, atualmente novas tecnologias e tendências disputam a atenção dos produtores, mesmo que haja um imaginário comum do consumidor de que a rolha de cortiça é o melhor sistema e, portanto, é utilizada em vinhos de maior qualidade.

O uso da rolha de cortiça no vinho

A cortiça é utilizada há milhares de anos como fechamento para recipientes com líquidos, desde ânforas, até cerâmicas e garrafas de vidro. Porém, em relação ao vinho, os primeiros vestígios de vinificação na Geórgia mostram que o fechamento das ânforas era feito inicialmente com tampas de argila e não de cortiça, sendo que as primeiras evidências do uso de cortiça no vinho foram registrados no período do Egito Antigo. Foram, no entanto, os romanos que colocaram a rolha de cortiça em evidência, quando foram encontradas garrafas de vinho fechadas com cortiça em naufrágios do século V a.C.

Até então a cortiça era usada juntamente com resinas para garantir que o recipiente fosse efetivamente selado e as barricas que continham vinho eram vedadas com pedaços de couro ou tecido embebidos em cera, de forma artesanal e ancestral, pois as garrafas nada mais eram do que meros vasilhames de transporte da adega até a mesa.

Com a queda do Império Romano, culminada no ano 476 d.C, o comércio encolheu drasticamente e os agricultores de cortiça, especialmente da Península Ibérica, também foram atingidos. Somado à isso, a invasão pelos mouros no século VII e a proibição religiosa de consumo de álcool praticamente destruíram a indústria da cortiça no período.

O vinho e outras bebidas ficaram sem a rolha de cortiça por quase um milênio e, neste período, para evitar a oxidação, pequenas quantidades de azeite eram derramadas em cima do vinho para barrar o contato com oxigênio, como alternativa de vedação, além de serem utilizados panos, couros e mesmo rolhas de vidro nas garrafas.

À partir da década de 1620, paralelamente à fabricação de garrafas de vidro mais duráveis, tanto para o transporte como para o armazenamento de vinhos, a rolha de cortiça conquistou sua posição no mercado como sistema ideal para proteger a bebida. Foram os ingleses que dominaram a tecnologia, popularizaram e baratearam o uso das garrafas de vidro no vinho, comprometendo outros produtores do mundo, em especial os venezianos.

Ainda assim, o uso da rolha de cortiça não foi imediato e inicialmente era criticado. Mesmo sendo um material flexível, leve, durável e praticamente impermeável, a falta de padrão de qualidade não garantia um fechamento eficiente das garrafas e muitos vinhos acabavam estragando, razão pela qual eram preferíveis as tampas de vidro no início pelos ingleses.

Ocorre que, em virtude de sua praticidade, com o tempo a rolha ganhou maior popularidade, notadamente após a invenção do saca-rolha, em 1680. Além disso, o mercado de espumantes elaborados pelo método tradicional também se popularizou, e para eles a rolha de cortiça é indispensável. Impossíveis de serem substituídas nos espumantes, as rolhas podem durar por décadas, mantendo o vinho estável e, principalmente, tendo a elasticidade necessária para serem colocadas numa máquina, empurradas para dentro do gargalo e imediatamente se ajustarem a ele, não deixando nenhum espaço livre.

Nessa fase, a Espanha era a principal fornecedora de cortiça. Apenas no século XIX Portugal assumiu papel relevante, quando tecnologias mais modernas impulsionaram e baratearam a produção de rolhas para fechamento de vinhos, assumindo quase um domínio absoluto na vedação da bebida. Atualmente, Portugal produz mais de 50% da cortiça consumida no mundo.

Nas últimas décadas, contudo, o mercado vem minimizando a presença da rolha de cortiça nos vinhos, pelo surgimento da screwcrap (tampa de rosca), de rolhas sintéticas e a retomada das rolhas de vidro (produzidas recentemente pelos alemães, em especial, com um pequeno anel de silicone que facilita a abertura da garrafa). Esse movimento global desafia a percepção do consumidor sobre a qualidade da bebida, que em geral ainda considera a rolha de cortiça o melhor sistema.

O que é a cortiça

A rolha de cortiça nada mais é do que uma rolha feita com a casca do carvalho da variedade Quercus suber, ou sobreiro, que cresce abundantemente em Portugal e também na Espanha e na costa da África.

Trata-se de uma grossa camada de proteção que a planta naturalmente desenvolve, mas que só pode ser retirada de árvores adultas, com mais de 25 anos, e quando retirada, exclusivamente de forma manual, demora nove anos para se recompor.

O descortiçamento exige grande experiência e precisão milimétrica para retirada apenas da camada morta da casca – um golpe errado pode atingir o tecido vivo (felogênio) que permite que a árvore se regenere e ferir o tronco permanentemente,

Embora seja um recurso natural, o tempo de espera e a produção essencialmente manual, por si só, já justificam a razão pela qual as rolhas de cortiça tem valores mais elevados no mercado do vinho e a indústria vive em busca de alternativas.

Ainda, depois de retirada a casca do carvalho, é preciso deixá-la ao ar livre para secar por quase um ano e depois ela é cozida para recuperar sua elasticidade. Na sequência, ela é secada novamente e separada em placas para ser cortada, de acordo com a sua qualidade. Ao final, a cortiça recebe um banho para retirar rebarbas e ser esterilizada.

Nesse processo é que surge o desafio da rolha de cortiça para o vinho. A esterilização mal feita ou o descuido na forma de armazenamento podem gerar a chamada “doença da rolha”, que invariavelmente pode causar defeitos na bebida.

O descuido na produção da cortiça permite que os compostos químicos e microrganismos da rolha passem imediatamente ao vinho, possibilitando a contaminação com o TCA (tricloroanisol) que causa o defeito conhecido como bouchonée (rolhado), facilmente perceptível na degustação, porque dá à bebida um gosto de mofo ou de papelão molhado, inconfundível.

Neste cenário, boas rolhas de cortiça são valiosas.

Vale destacar, porém, que é normal que a rolha esteja molhada ou com um pouquinho de mofo quando o lacre é retirado. Se ela for uma boa rolha, é comum que o vinho, ao longo dos anos, penetre seus veios e deixe a rolha úmida e expandida. Além disso, muitos vinhos que envelhecem em caves recebem a cápsula somente no momento que serão lançados no mercado e, como as caves são úmidas, se não for feita a limpeza antes da colocação da cápsula metálica ou da cera, algum sinal de mofado por ficar entre a rolha e o gargalo, sem significar defeito.

É importante ter em mente que a rolha de cortiça pode ser maciça, aglomerada e aglomerada com fundo maciço.

  • Rolha maciça – cortada de uma única peça de cortiça. Oferece elasticidade superior e micro-oxigenação ideal.
  • Rolha aglomerada – feita com pedaços e sobras de cortiça triturados e colados. A elasticidade e durabilidade são menores e o tamanho por vezes também é menor do que da rolha maciça, também chamada de natural.
  • Rolha aglomerada com fundo maciço – o corpo é de aglomerado (cortiça triturada), mas possui discos de cortiça maciça nas pontas, em especial para evitar o contato da cola com a bebida, que pode interferir nos aromas.
  • Rolha de vinhos espumantes – feita de duas partes, em formato de cogumelo. A parte de cima é produzida de aglomerado de cortiça bastante rígido e sem elasticidade, para permitir sacar a rolha com as mãos. A parte de baixo, que fica dentro do gargalo da garrafa, é feita de rolha maciça e elástica para vedar e proteger o líquido.

Sistemas alternativos de vedação de vinhos

Para além do alto custo da produção de rolhas de cortiça, conforme cresceu a produção mundial de vinhos, a quantidade de árvores que produzem cortiça não conseguiu acompanhar essa evolução. Ademais, por questão de higiene e para evitar os riscos de contaminação os produtores passaram adotar novas alternativas de vedação de vinhos.

Produzidas com um composto plástico, a rolha sintética custa menos, é perfeitamente adequada para um enorme número de vinhos e tem a vantagem de nunca apresentar a “doença da rolha”. Pesquisas recentes – até mesmo em razão do pouco tempo no mercado – apontam que rolhas sintéticas são perfeitas para vinhos de consumo mais rápido, mas sua durabilidade em longo prazo ainda não está efetivamente comprovada para vinhos de guarda. As rolhas sintéticas surgiram no mercado no início dos anos 1990 e foram desenvolvidas nos Estados Unidos.

Igualmente a tampa rosca (screwcap), feita com metal leve e uma pequena proteção de silicone, apresenta as mesmas vantagens da sintética, além de utilizar pouco petróleo em sua composição, tratando-se de um produto mais sustentável, reciclável e de fácil manuseio. Seu surgimento ocorreu por volta dos anos 1960 na França, mas é um sistema de vedação com grande utilização em países como Austrália e Nova Zelândia, ideal para vinhos jovens e possível para vinhos de guarda.

As rolhas de vidro eram utilizadas de forma rudimentar há milênios, antes mesmo da popularização da rolha de cortiça, e surgiram por volta de 1.500 a.C no Egito Antigo. No entanto, foi no início dos anos 2000 que esse tipo de rolha ganhou força na Europa, com uma versão moderna desenvolvida na Alemanha, que utiliza uma vedação de polímero ou silicone, que vedam a bebida por completo e facilitam o manuseio, permitindo abrir e fechar a garrafa manualmente.

Por fim, mais recente ainda no mercado, surgiu a tendência da bag-in-box (vinho em caixa). O conceito de bag-in-box (BIB) para vinhos foi criado na Austrália em 1965, mas o produto chegou ao mercado nacional nos últimos cinco anos. Trata-se de uma caixa externa, comumente produzida de papelão estável e ondulada, na qual é colocada uma bolsa de plástico com a bebida, conectada a uma torneira para a liberação do vinho na quantidade determinada pelo consumidor. Por ser embalada à vácuo e proteger a bebida da luz, o vinho se conserva bem, além de ser de fácil manuseio e transporte.

Com relação ao lacre de cera sobre a rolha de cortiça, tal como a cápsula de alumínio, sua função primordial não é prevenir ou evitar a oxigenação do vinho. Sua aplicação surgiu, historicamente, como forma de proteger a rolha de insetos e roedores durante o período de armazenamento da bebida. Porém, com a retomada da produção de vinhos pelo método ancestral e artesanal, cada vez mais aparecerem novos vinhos com lacre de cera no mercado.

É verdade que, na visão do consumidor final, de modo geral, os sistemas alternativos de vedação tiram todo o glamour associado ao ato de abrir um vinho. Contudo, independentemente de ritual, estilo ou tradição, todas essas alternativas modernas, que são tendência global, cumprem a função primordial de vedar o vinho e impedir o contato com o oxigênio, equilibrando a arte da produção com a ciência da preservação natural.

Tratando-se de inovações tecnológicas que, além de reduzir custos e riscos, também auxiliam na preservação de recursos naturais findáveis, os novos sistemas de vedação, em especial para vinhos de consumo jovem, serão cada vez mais frequentes. Ao consumidor cabe o exercício de se permitir, sem preconceitos, viver o prazer do vinho.

Por Ana Carla Wingert de Moraes

Foto de capa: @vinhosdoalentejobrasil

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